Por Alice Ferman
Há 20 anos, as vidas de seis pessoas foram completamente
arruinadas devido a acusações precipitadas de abuso sexual no caso Escola Base,
em São Paulo. No início do mês passado, dia 5, mais um espetáculo midiático.
Uma dona de casa morreu vítima de espancamento no Guarujá (SP) por ser
confundida na internet com suposta sequestradora de crianças.
O episódio da Escola
de Educação Infantil Base foi um dos erros mais grotescos cometidos pela
imprensa brasileira. Uma sucessão de dados inconsistentes, como o resultado
parcial do Instituto Médico Legal (IML), que se mostrou inconclusivo, até a irresponsabilidade
do delegado em declarar que o inquérito é
a prova, levaram os jornais ao êxtase da corrida em torno do furo mais
sensacionalista.
Além disso, os
acusados perderam muito mais do que a reputação.
Os ex-donos da Escola Base, Icushiro Shimada e Maria Aparecida Shimada, por
exemplo, tiveram que fechar as portas da instituição e desenvolveram doenças seríssimas
como infarto e câncer, respectivamente. Maria Aparecida veio a falecer em 2007
e Icushiro em abril deste ano.
Já em relação ao mais recente
caso de linchamento do país, o
circo começou com um boato e duas imagens espalhadas nas redes sociais, que
foram compartilhadas sem apuração adequada pela comunidade Guarujá Alerta no
Facebook. Uma delas era a fotografia de uma página de humor conhecida como Jaciara Macumbeira e a outra um retrato
falado de um caso que ocorreu no Rio de Janeiro em 2012.
A liberdade de
expressão na rede é um meio democrático da sociedade, mas, para que isso
funcione de forma benéfica e justa, é necessário que haja uma densa apuração
dos fatos, ou seja, um jornalismo investigativo e compromissado.
O filme Ace in The Hole, em português A Montanha dos Sete Abutres (1951), faz
uma reflexão sobre o jornalismo oportunista, antiético e criativo, mais
marqueteiro do que jornalístico. Um tema que, infelizmente, está tão comum e
atual.
Enquanto no
plano real a jornalista do SBT Rachel Sheherazade defende
publicamente o linchamento como forma mais eficaz de resposta para conter a
violência nos grandes centros, na trama do diretor Billy Wilder, a ambição sem limites é o que guia
o repórter veterano Charles Tatum, personagem de Kirk Douglas.
Sem emprego e
desanimado com a vida, Tatum agarra a oportunidade de montar um grande cerco midiático quando descobre um homem
vítima de desabamento no interior de uma montanha esperando por socorro. Então,
ele enrola o resgate por vários dias a fim de emplacar uma grande matéria e conquistar a tão sonhada fama.
De fato o
jornalista deve ser um bom contador de histórias, mas sobretudo ter o cuidado
ético para não distorcê-las como aconteceu na Escola Base e nos boatos do
Guarujá. Escândalos podem tomar proporções drásticas e destruir vidas e a pressão
da mídia e das populações muitas vezes atrapalham nas investigações, impedindo o
benefício da dúvida aos suspeitos.
A importância
da imprensa como fiscalizadora é fundamental para o sistema democrático, porém
o que se tem visto hoje em dia são inúmeras denúncias sem critérios, ou
checagem. Na era da interatividade, são diversas as declarações pesadas e
levianas envolvendo nomes de pessoas inocentes, que acabam sendo punidas de
forma irresponsável e apressada.
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