domingo, 29 de junho de 2014

Sobre o filme HYPE! e a cena grunge...

Por Alice Ferman.

No noroeste dos Estados Unidos, especialmente em Seattle, Washington, já existia uma “cena” que misturava estilos como o rock, heavy metal, indie e o tosco. A região foi classificada pelo fotógrafo Charles Peterson e pelo designer gráfico Art Chantry como um lugar frio, chuvoso, esquisito e “capital mundial dos assassinatos em série”. Por isso, uma espécie de punk rock acontecia como expressão de toda essa “obscuridão”.
Nos anos 80 as bandas grandes não costumavam se apresentar em Seattle, pois não valia a pena fazer apenas um show. Além disso, haviam poucos clubes onde os músicos locais podiam tocar seus próprios sons. Ou seja, no início da década, Seattle era apenas mais uma “cidadezinha” de porte médio, com “bandas idiotas” que tentavam imitar outras e onde ninguém se importava em fazer sucesso.
De acordo com o filme, as formações que tocavam na cidade o faziam simplesmente porque estavam entediadas e era divertido tocar com os amigos, só que alguns artistas de fora que passavam por Seattle falavam que lá estava rolando a “cena” mais empolgante dos Estados Unidos.
Segundo Peterson, isso acontecia porque todos que iam nos shows enlouqueciam, bebiam até cair e se jogavam no palco, o que deixava as bandas bastante lisonjeadas. Enquanto isso, nas grandes metrópoles, como Los Angeles e Nova Iorque, o público não passava a mesma energia, pois era mais contido e superanalisava as performances dos músicos.
Para explicitar esse cenário, o documentário alterna boas fotos das diversas bandas, ou documentos, ou ainda vídeos delas tocando em Seattle com declarações de artistas que se sentiam angustiados e também participaram da construção desse movimento, que veio a se tornar um grande protagonista dos anos 90: o grunge.
Uma das bandas que foram reflexo dessa expressão nos anos 80 foi Soundgarden, que só estourou de verdade nos anos 90, com a intensa divulgação da mídia e posterior massificação do grunge.
O nome grunge significa sujeira e foi dado por Mark Arm, vocal da banda Green River. O mais interessante é o que os integrantes da maioria dos grupos desse estilo já participaram de outras bandas irmãs, que participaram de outras semelhantes, e outras, formando uma “grande árvore genealógica incestuosa”, como sugere Leighton Beezer, do Stomach Pump.
Por mais que as letras fossem muitas vezes idiotas ou sem sentido, os shows atraíam por serem simplesmente chocantes, puros, imprevisíveis e “vivos”. A bandas não precisavam de muitos instrumentos ou dinheiro, apenas tiveram coragem para fazer um som original com o que tinham e do jeito que podiam. “Era a mais barulhenta, a mais absurda e mais pesada”, disse Tad. O propósito era ser caótico, libertador e fazer rock em sua essência sem se preocupar muito em fazer sucesso ou vender.
Foi quando Bruce Pavitt, mais conhecido por sua uma rede de vendas de fitas cassetes, a Sub-pop,  decidiu se juntar a Jonathan Poneman, outro grande fã de bandas grunge, a fim de quebrarem o modelo anti-hit dos anos 80 e abrirem uma gravadora para fabricar sucessos da cena underground.
Então, chamaram um jornalista britânico para Seattle, que escreveu um artigo sobre o mundo sub-pop da região, o que iniciou um grande frenesi na Inglaterra e colocou a pequena e esquisita cidadezinha americana no mapa. Seattle passou a ter uma identidade própria no mundo e a Sub-Pop, gravadora, aproveitou para divulgar cada vez mais sua marca e abrir as portas para uma explosão da sub-cultura.
Foi então que o estilo de se vestir com botas e camisas de flanela também passou a ser extremamente divulgado, influenciando milhares de pessoas. Porém, bandas como o Pearl jam não gostaram muito dessa popularização do grunge e boicotaram empresas que tentavam lucrar em cima delas.
A música Smells Like Teen Spirit, do Nirvana, grita de forma crítica sobre a nova situação do grunge e seu apoderamento pelo mundo hype, que gira em torno de produzir sucessos atrás de dinheiro. A foto de capa do álbum Nevermind, com um bebê pelado, puro e inocente, nadando atrás de uma isca com dólar, também claramente convida o público a refletir sobre como o ser humano pode ser facilmente corrompido pelo poder.
Infelizmente, a corrupção em troca de dinheiro nunca deixou de existir, seja na música, na política, ou em qualquer outra área. No entanto, dependendo do contexto, a falta de ética e compromisso com a verdade pode tomar proporções drásticas, destruindo muito além de reputações.
Segundo Gabriel Garcia Márquez, o jornalismo não tem como existir sem ética. Uma informação errada, ou destorcida, pode culminar no pré-julgamento de situações e até mesmo na morte de pessoas inocentes. Como exemplo, em 1994 o vocalista do Nirvana, Kurt Cobain, que sofria bastante de depressão e com o vício em heroína devido a grande pressão da fama, foi encontrado morto em casa com um tiro de espingarda, abalando a “cena” grunge até os dias de hoje.
Dessa forma, o jornalista tem, acima de tudo, um compromisso social e deve apurar de forma densa os fatos, ouvindo todas as partes envolvidas na história, estando atento para não manipular informações, ou cometer injustiças. Deve ter bom senso e caráter para julgar o que deve ser explicitado de acordo com o interesse público e o que pode ser evitado.
Por fim, a importância da imprensa é fundamental para o sistema democrático, porém o que se tem visto hoje, na era da interatividade, ainda são inúmeras matérias com pouca checagem, ou critérios.


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