Por Alice Ferman.
No noroeste dos Estados Unidos,
especialmente em Seattle, Washington, já existia uma “cena” que misturava estilos
como o rock, heavy metal, indie e o tosco. A região foi classificada pelo
fotógrafo Charles Peterson e pelo designer gráfico Art Chantry como um lugar frio,
chuvoso, esquisito e “capital mundial dos assassinatos em série”. Por isso, uma
espécie de punk rock acontecia como expressão de toda essa “obscuridão”.
Nos anos 80 as bandas grandes não costumavam
se apresentar em Seattle, pois não valia a pena fazer apenas um show. Além
disso, haviam poucos clubes onde os músicos locais podiam tocar seus próprios
sons. Ou seja, no início da década, Seattle era apenas mais uma “cidadezinha”
de porte médio, com “bandas idiotas” que tentavam imitar outras e onde ninguém
se importava em fazer sucesso.
De acordo com o filme, as formações que
tocavam na cidade o faziam simplesmente porque estavam entediadas e era divertido
tocar com os amigos, só que alguns artistas de fora que passavam por Seattle
falavam que lá estava rolando a “cena” mais empolgante dos Estados Unidos.
Segundo Peterson, isso acontecia porque
todos que iam nos shows enlouqueciam, bebiam até cair e se jogavam no palco, o
que deixava as bandas bastante lisonjeadas. Enquanto isso, nas grandes
metrópoles, como Los Angeles e Nova Iorque, o público não passava a mesma
energia, pois era mais contido e superanalisava as performances dos músicos.
Para explicitar esse cenário, o
documentário alterna boas fotos das diversas bandas, ou documentos, ou ainda vídeos
delas tocando em Seattle com declarações de artistas que se sentiam angustiados
e também participaram da construção desse movimento, que veio a se tornar um grande
protagonista dos anos 90: o grunge.
Uma das bandas que foram reflexo dessa
expressão nos anos 80 foi Soundgarden, que só estourou de verdade nos anos 90,
com a intensa divulgação da mídia e posterior massificação do grunge.
O nome grunge significa sujeira e foi
dado por Mark Arm, vocal da banda Green River. O mais interessante é o que os integrantes
da maioria dos grupos desse estilo já participaram de outras bandas irmãs, que
participaram de outras semelhantes, e outras, formando uma “grande árvore
genealógica incestuosa”, como sugere Leighton Beezer, do Stomach Pump.
Por mais que as letras fossem muitas
vezes idiotas ou sem sentido, os shows atraíam por serem simplesmente
chocantes, puros, imprevisíveis e “vivos”. A bandas não precisavam de muitos
instrumentos ou dinheiro, apenas tiveram coragem para fazer um som original com
o que tinham e do jeito que podiam. “Era a mais barulhenta, a mais absurda e
mais pesada”, disse Tad. O propósito era ser caótico, libertador e fazer rock
em sua essência sem se preocupar muito em fazer sucesso ou vender.
Foi quando Bruce Pavitt, mais conhecido
por sua uma rede de vendas de fitas cassetes, a Sub-pop, decidiu se juntar a Jonathan Poneman, outro grande
fã de bandas grunge, a fim de quebrarem o modelo anti-hit dos anos 80 e abrirem
uma gravadora para fabricar sucessos da cena underground.
Então, chamaram um jornalista britânico para
Seattle, que escreveu um artigo sobre o mundo sub-pop da região, o que iniciou
um grande frenesi na Inglaterra e colocou a pequena e esquisita cidadezinha
americana no mapa. Seattle passou a ter uma identidade própria no mundo e a
Sub-Pop, gravadora, aproveitou para divulgar cada vez mais sua marca e abrir as
portas para uma explosão da sub-cultura.
Foi então que o estilo de se vestir com
botas e camisas de flanela também passou a ser extremamente divulgado,
influenciando milhares de pessoas. Porém, bandas como o Pearl jam não gostaram muito
dessa popularização do grunge e boicotaram empresas que tentavam lucrar em cima
delas.
A música Smells Like Teen Spirit, do
Nirvana, grita de forma crítica sobre a nova situação do grunge e seu
apoderamento pelo mundo hype, que gira em torno de produzir sucessos atrás de
dinheiro. A foto de capa do álbum Nevermind, com um bebê pelado, puro e
inocente, nadando atrás de uma isca com dólar, também claramente convida o
público a refletir sobre como o ser humano pode ser facilmente corrompido pelo
poder.
Infelizmente, a corrupção em troca de
dinheiro nunca deixou de existir, seja na música, na política, ou em qualquer
outra área. No entanto, dependendo do contexto, a falta de ética e compromisso
com a verdade pode tomar proporções drásticas, destruindo muito além de
reputações.
Segundo Gabriel Garcia Márquez, o
jornalismo não tem como existir sem ética. Uma informação errada, ou
destorcida, pode culminar no pré-julgamento de situações e até mesmo na morte
de pessoas inocentes. Como exemplo, em 1994 o vocalista do Nirvana, Kurt
Cobain, que sofria bastante de depressão e com o vício em heroína devido a
grande pressão da fama, foi encontrado morto em casa com um tiro de espingarda,
abalando a “cena” grunge até os dias de hoje.
Dessa forma, o jornalista tem, acima de
tudo, um compromisso social e deve apurar de forma densa os fatos, ouvindo
todas as partes envolvidas na história, estando atento para não manipular
informações, ou cometer injustiças. Deve ter bom senso e caráter para julgar o
que deve ser explicitado de acordo com o interesse público e o que pode ser evitado.
Por fim, a importância da imprensa é
fundamental para o sistema democrático, porém o que se tem visto hoje, na era
da interatividade, ainda são inúmeras matérias com pouca checagem, ou critérios.
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