domingo, 29 de junho de 2014

Ipanema deixa posto de 'queridinha do Rio'

Por Alice Ferman


         O bairro onde mora o secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame, é também palco de constantes cenas de violência, que vem angustiando moradores e trabalhadores da região. A blumenauense e estudante de cinema Mariana Tiefensee Wilhelm, 24, é moradora de Ipanema há 4 anos e garante que tem sentido mais medo ao andar pelas ruas do bairro. “Nunca tinha visto dar problema aqui antes, mas, desde o ano passado, furtaram minha bolsa dentro de um bar na Farme (Rua Farme de Amoedo) e tentaram me assaltar a menos de 30 metros de uma cabine de polícia na praça General Osório”.
         Segundo dados do Instituto de Segurança Pública (ISP), Ipanema teve um aumento de 18% nos boletins de ocorrência dentro do período de junho a setembro de 2013 comparado ao ano anterior. Ainda de acordo com o ISP, na área da 14ª DP, que inclui parte de Ipanema, Leblon e Lagoa, houve uma elevação de 240,9% no número de ataques aos transeuntes.
         Para a estatística e comerciante Fátima Tamara Teixeira Freire, 58, que mora e trabalha há 36 anos em Ipanema, o que tem contribuído para esse fato são os tapumes das obras do metrô. “Aumentou a violência entre os becos criados pelos tapumes. Quando passei por situações semelhantes em Nova Iorque, ao invés de câmeras, tinham luzes muito fortes e espelhos convexos nos corredores para inibir a ação de assaltantes”.
         Segundo a Polícia Militar, o 23º BPM, no Leblon, que atende Ipanema e outros bairros da zona sul, está em contínuo contato com o Metrô Rio a fim de melhorar o policiamento na região e já intensificou o patrulhamento durante à noite com o auxílio de 40 PMs.
         No entanto, a grande especulação imobiliária também tem tirado o sono dos ipanemenses, levando muitos a desistirem de construir a vida no bairro. “Quero voltar pra Blumenau quando terminar minha faculdade, porque o custo de vida aqui está extremamente alto. Eu não quero trabalhar para sobreviver, quero ter qualidade de vida e está sendo bem difícil”, conta a estudante.
         A soma de diversos atrativos como apelo turístico, cultura do bairro e belezas naturais geram muita demanda, porém pouca oferta, o que tem ocasionado uma elevação no metro quadrado do bairro, muitas vezes exorbitante, e que chega a ultrapassar os R$ 50 mil na orla de Ipanema.
         De acordo com o sócio-diretor da Yield Capital, Cláudio Moura, muitos especulam que há uma bolha dos imóveis, não apenas em Ipanema, mas no Brasil, devido à ampla oferta de crédito e ao aumento da renda da população, que possibilitou uma busca maior pela realização do sonho da casa própria e um consequente aumento exacerbado dos preços. "As pessoas, sempre que algo sobe muito, começam a falar de bolha. Os preços estão altos, mas em linha com os de várias cidades no mundo".
Em média, o valor do metro quadrado nas ruas internas de Ipanema é de R$ 18.474, enquanto na Avenida Vieira Souto sobe para R$ 34.867, segundo pesquisa feita pelo Sindicato de Habitação do Rio (Secovi-Rio). Além disso, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os números da inflação medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) no período entre 2001 e 2011 foi de 91,85%, o que fez os apartamentos da região valorizarem até 600%.
Entretanto, hoje em dia o Leblon é considerado o bairro mais chique do Rio de Janeiro. Conforme os dados do Secovi-Rio, isso acontece porque o número de ruas consideradas nobres é superior ao de Ipanema, além de estar localizado num local mais reservado e possuir prédios de arquitetura moderna. No entanto, para Fátima Freire, Ipanema tem mais valor. “Eu já morei na Rua Venâncio Flores quando tinha 22 anos e acho Ipanema muito mais gostoso e tranquilo. No Leblon os prédios são altíssimos e as ruas cheias de bar. Além disso, Ipanema tem eleita a melhor praia urbana do mundo”.
Apesar de todos os transtornos e confusões que Ipanema vem sofrendo pelas obras do metrô, aumento dos preços e da criminalidade, os moradores concordam que a localização entre a praia e a Lagoa Rodrigo de Freitas é um privilégio, “qualquer pessoa que tem a oportunidade de ir a pé até a praia é um privilegiado”, concluiu Mariana Wilhelm.
         O bairro residencial de classe média alta possui uma população de 46.808 habitantes e renda média mensal per capita de R$ 40.371,66, segundo o censo de 2000 do IBGE. É caracterizado pelas grifes de luxo na Rua Garcia D´Ávila, assim como pela alma cultural, que se perpetua com cinemas e teatros pequenos e bares como o Garota de Ipanema, onde Vinícius de Moraes escreveu algumas composições. Mas para Wilhelm, Ipanema tem o clima, mas não chega perto de Botafogo, “o Laura Alvim parece um espaço jogado fora, enquanto o Oi Futuro não é muito acessível ao público em geral. Ao meu ver, a importância cultural de Ipanema está mais ligada à parte histórica e literária do bairro”.
         Ainda de acordo com dados do IBGE, o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) no bairro, que é medido de zero a um, está em 0,962, considerado altíssimo, inclusive se comparado ao IDH de países desenvolvidos como a Suíça. Ipanema é um bairro que os cariocas e os turistas gostam de admirar, com uma praia exuberante de 2,8 quilômetros de extensão, dividida entre diversas tribos, que vão desde os surfistas do Arpoador, os jovens de classe média no posto 10 e as manifestações vanguardistas no posto 9, seja a favor do “topless”, da liberação da maconha, ou em defesa do casamento igualitário.

         Além de tudo isso, o bairro é o lugar dos que gostam de aplaudir o pôr-do-sol e da Feira Hippie, recente patrimônio histórico do Rio, que há 45 anos vende comidas típicas do país, utensílios de decoração artesanal e até camisetas para lembrança e que foi ainda um importante símbolo de resistência na época da ditadura militar de 1964.

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