domingo, 29 de junho de 2014

O que é um homem razoável?


Resenhado por Alice Ferman em outubro de 2008.
“A justiça de um Homem”, originalmente conhecido como “A reasonable man”, foi o filme dirigido, escrito, estrelado e co-produzido por Gavin Hood, em 1999. Seu contexto gira em torno do conflito entre crenças de diferentes culturas na África do Sul, mais especificamente entre a cultura inglesa, colonizadora, e a africana, colonizada, questionando o posicionamento de ambas.
Na Angola de 1988, durante uma guerra civil, Sean, um dos soldados, aparece tomado pelo medo e resolve se esconder em uma das casas abandonadas. De repente, percebe um movimento vindo de dentro de um guarda roupas e atira contra ele sem parar. Em seguida, um menino cai para fora do armário morto e Sean se desespera, abraçando-o.
Dez anos mais tarde, Sean, que havia ido estudar Direito na Inglaterra, retorna já formado ao continente africano com sua mulher, a fotografa profissional Jennifer Raine, para se divertirem. Em Kwazulu-Natal, na África do Sul, eles encontram Sipho Mbombela, um boiadeiro que, por descuido, quase os atropela a beira de um rio.
No mesmo dia, Sean e sua mulher vão visitar uma colônia em Zululand, mas acabam presenciando a cena de um crime, o assassínio de um bebe, onde Sipho encontrara-se envolvido e, logo, preso pelo Sargento Linde. O jovem zulu alegava ter matado um Tikoloshe, espírito maligno na cultura africana, e não um bebe.
O recém formado em advocacia não acredita que Sipho poderia ter cometido tal atrocidade e vai atrás de sua advogada, que alegara insanidade mental do jovem boiadeiro. Ela decide, então, passar o caso para Sean. Este, por sua vez, procura o professor MacKenzie, um escritor e especialista em crenças e rituais da cultura africana de Zululand.
Segundo o professor, o Tikoloshe seria um espírito maligno, servo das bruxas, consideradas pessoas “más”, enquanto os feiticeiros, pessoas “boas”, lutavam contra bruxas e tinham o papel de aliviar os sofrimentos mentais e físicos causados por elas. MacKenzie indica uma feiticeira (ou sangoma) a Sean, chamada Rachel Ndlovu, para que ele pudesse entender mais profundamente as crenças africanas e defender, da melhor forma possível, seu cliente no tribunal.
A promotoria, por outro lado, acusa Sipho de homicídio doloso, alegando que esse matara a criança para fazer muti, uma bebida “curandeira” do azar, já que, não só a cabeça dela havia sido acertada com um machado, como as genitais teriam sido retiradas (o que comprovaria a pratica do muti).
Sean resolve ir até a feiticeira com a finalidade de lhe fazer algumas perguntas, mas quando chega lá, acaba examinado por ela e descobre que possui “a cobra” dentro de si, uma coisa ruim, que seria, na verdade, a ligação dele com Sipho: o fato de ambos terem matado uma criança. Ele, enquanto soldado na guerra civil e Sipho, na posição de um homem de fé. Rachel manda-o tomar um muti feito a base de ervas e passar um óleo nas sobrancelhas para lhe trazer sorte no tribunal. 
Numa das sessões no tribunal, O Sr. Van Rooyen, sargento branco que morava há 8 anos com os zulus, depõe afirmando que os feiticeiros utilizavam partes do corpo para preparar muti, no entanto, acaba desmentido pelo próprio juiz e, mais tarde, pelo advogado de defesa, quando este interroga MacKenzie e afirma que de nada serviriam as genitais da vitima se esta já estivesse morta, segundo o próprio livro do professor. Comprova ainda com fotos que a genitália do bebe estava intacta após o assassinato e teria sido removida por terceiros, afim incriminar a tribo de Sipho. Apesar disso, Sean confirma que tenha sido Sipho o assassino, pois, na verdade, o boiadeiro acreditava fielmente estar matando o Tikoloshe e não uma criança. 
O mistério é revelado quando a irmãzinha do jovem zulu conta que, naquela noite, estava havendo um ritual promovido por um sangoma, a fim de curar a doença da irmã da vitima. Com isso, a mãe do bebe assassinado, resolveu colocá-lo na casa de Sipho, para que ficasse protegido da tosse da irmã. Contudo, ela não avisara a ninguém e, por isso, a irmãzinha de Sipho confundira os movimentos da cadeira de sua casa, reproduzidos devido aos primeiros passos da criança, com a presença do Tikoloshe, chamando Sipho para defendê-la. O jovem boiadeiro, convicto de que era o Tikoloshe que estava em sua casa, acerta-o com um machado, sem imaginar que aquilo poderia ser um bebe e acaba sendo indiciado por homicídio doloso.
É compreensível que Sipho tenha acreditado de coração que a criança, coberta pela toalha de mesa, fosse o Tikoloshe, levando se em consideração toda sua formação e educação. Porém, também é certo afirmar que Sipho, por muitas vezes, agia de forma negligente e impulsiva, como: na vez em que descia com as vacas pelas margens do rio, sem notar a presença de Sean, Jennifer e seus acessórios de viagem (bote, mochilas, etc), quase os pisoteando; ou quando mata o bebe de sua própria tribo, sem antes verificar o que havia em baixo da toalha.
Por outro lado, é difícil estabelecer uma definição precisa do que é o homem razoável. Na cultura inglesa, matar uma criança por descuido, estando-se na posição de um soldado, é “perdoável”, enquanto, matar uma criança, pois a confundira com um espírito do mal, é inadmissível. De todas as formas estão tirando vidas, um direto, um bem maior de todo ser humano, por negligencia.
Dessa forma, o filme deixa algumas questões pairando no ar, como: o que é certo? Quem pode julgar? Qual é o limite para uma cultura interferir na outra? Acima de todas essas indagações, é preciso se agir com cautela em relação ao outro e pensar que a vida deveria ser sempre preservada.

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