Resenhado por Alice
Ferman em outubro de 2008.
“A justiça de um Homem”, originalmente conhecido como “A
reasonable man”, foi o filme dirigido, escrito, estrelado e co-produzido por
Gavin Hood, em 1999. Seu contexto gira em torno do conflito entre crenças de
diferentes culturas na África do Sul, mais especificamente entre a cultura
inglesa, colonizadora, e a africana, colonizada, questionando o posicionamento
de ambas.
Na Angola de 1988, durante uma guerra civil, Sean, um dos
soldados, aparece tomado pelo medo e resolve se esconder em uma das casas abandonadas.
De repente, percebe um movimento vindo de dentro de um guarda roupas e atira
contra ele sem parar. Em seguida, um menino cai para fora do armário morto e
Sean se desespera, abraçando-o.
Dez anos mais tarde, Sean, que havia ido estudar Direito na
Inglaterra, retorna já formado ao continente africano com sua mulher, a
fotografa profissional Jennifer Raine, para se divertirem. Em Kwazulu-Natal, na
África do Sul, eles encontram Sipho Mbombela, um boiadeiro que, por descuido,
quase os atropela a beira de um rio.
No mesmo dia, Sean e sua mulher vão visitar uma colônia em
Zululand, mas acabam presenciando a cena de um crime, o assassínio de um bebe,
onde Sipho encontrara-se envolvido e, logo, preso pelo Sargento Linde. O jovem
zulu alegava ter matado um Tikoloshe, espírito maligno na cultura africana, e
não um bebe.
O recém formado em advocacia não acredita que Sipho poderia ter
cometido tal atrocidade e vai atrás de sua advogada, que alegara insanidade
mental do jovem boiadeiro. Ela decide, então, passar o caso para Sean. Este,
por sua vez, procura o professor MacKenzie, um escritor e especialista em
crenças e rituais da cultura africana de Zululand.
Segundo o professor, o Tikoloshe seria um espírito maligno, servo
das bruxas, consideradas pessoas “más”, enquanto os feiticeiros, pessoas
“boas”, lutavam contra bruxas e tinham o papel de aliviar os sofrimentos
mentais e físicos causados por elas. MacKenzie indica uma feiticeira (ou
sangoma) a Sean, chamada Rachel Ndlovu, para que ele pudesse entender mais
profundamente as crenças africanas e defender, da melhor forma possível, seu
cliente no tribunal.
A promotoria, por outro lado, acusa Sipho de homicídio doloso,
alegando que esse matara a criança para fazer muti, uma bebida “curandeira” do
azar, já que, não só a cabeça dela havia sido acertada com um machado, como as
genitais teriam sido retiradas (o que comprovaria a pratica do muti).
Sean resolve ir até a feiticeira com a finalidade de lhe fazer
algumas perguntas, mas quando chega lá, acaba examinado por ela e descobre que
possui “a cobra” dentro de si, uma coisa ruim, que seria, na verdade, a ligação
dele com Sipho: o fato de ambos terem matado uma criança. Ele, enquanto soldado
na guerra civil e Sipho, na posição de um homem de fé. Rachel manda-o tomar um
muti feito a base de ervas e passar um óleo nas sobrancelhas para lhe trazer
sorte no tribunal.
Numa das sessões no tribunal, O Sr. Van Rooyen, sargento branco
que morava há 8 anos com os zulus, depõe afirmando que os feiticeiros
utilizavam partes do corpo para preparar muti, no entanto, acaba desmentido
pelo próprio juiz e, mais tarde, pelo advogado de defesa, quando este interroga
MacKenzie e afirma que de nada serviriam as genitais da vitima se esta já
estivesse morta, segundo o próprio livro do professor. Comprova ainda com fotos
que a genitália do bebe estava intacta após o assassinato e teria sido removida
por terceiros, afim incriminar a tribo de Sipho. Apesar disso, Sean confirma
que tenha sido Sipho o assassino, pois, na verdade, o boiadeiro acreditava
fielmente estar matando o Tikoloshe e não uma criança.
O mistério é revelado quando a irmãzinha do jovem zulu conta
que, naquela noite, estava havendo um ritual promovido por um sangoma, a fim de
curar a doença da irmã da vitima. Com isso, a mãe do bebe assassinado, resolveu
colocá-lo na casa de Sipho, para que ficasse protegido da tosse da irmã.
Contudo, ela não avisara a ninguém e, por isso, a irmãzinha de Sipho confundira
os movimentos da cadeira de sua casa, reproduzidos devido aos primeiros passos
da criança, com a presença do Tikoloshe, chamando Sipho para defendê-la. O
jovem boiadeiro, convicto de que era o Tikoloshe que estava em sua casa,
acerta-o com um machado, sem imaginar que aquilo poderia ser um bebe e acaba
sendo indiciado por homicídio doloso.
É compreensível que Sipho tenha acreditado de coração que a
criança, coberta pela toalha de mesa, fosse o Tikoloshe, levando se em
consideração toda sua formação e educação. Porém, também é certo afirmar que
Sipho, por muitas vezes, agia de forma negligente e impulsiva, como: na vez em
que descia com as vacas pelas margens do rio, sem notar a presença de Sean,
Jennifer e seus acessórios de viagem (bote, mochilas, etc), quase os
pisoteando; ou quando mata o bebe de sua própria tribo, sem antes verificar o
que havia em baixo da toalha.
Por outro lado, é difícil estabelecer uma definição precisa do
que é o homem razoável. Na cultura inglesa, matar uma criança por descuido,
estando-se na posição de um soldado, é “perdoável”, enquanto, matar uma
criança, pois a confundira com um espírito do mal, é inadmissível. De todas as
formas estão tirando vidas, um direto, um bem maior de todo ser humano, por
negligencia.
Dessa forma, o filme deixa algumas questões pairando no ar,
como: o que é certo? Quem pode julgar? Qual é o limite para uma cultura
interferir na outra? Acima de todas essas indagações, é preciso se agir com
cautela em relação ao outro e pensar que a vida deveria ser sempre preservada.
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