domingo, 29 de junho de 2014

Resenha sobre o livro A Arte de Argumentar

ABREU, Antônio Suárez . A arte de argumentar gerenciando razão e emoção. 1. ed. São Paulo: Ateliê Editorial, 1999. v. 1. 139 p.
Resenhado por Alice Ferman em 2008.
Departamento de Comunicação Social da PUC-Rio.

Mestre e Doutor em Lingüística pela Universidade de São Paulo, com experiência na área de Letras e ênfase em Língua Portuguesa, autor dos livros Curso de Redação (Editora Ática) e Gramática Mínima para o Domínio da Língua Padrão (Ateliê Editorial), Abreu aborda em A arte de argumentar que a argumentação se torna uma arte quando as pessoas necessitam manter contato e se relacionar, não apenas para gerenciar informações.
Este relacionamento é importante para a realidade em que se vive e para o futuro que se espera. Além disso, a relação com pessoas precisa sempre ser feita de maneira positiva, de forma que se conquistem confianças e amizades, já que ninguém consegue ser plenamente feliz sozinho. No entanto, mesmo com todos os artifícios criados pelo homem para diminuir as distâncias (a exemplo da tevê, internet, avião e navios), o medo faz com que ocorra um isolamento do outro, não possibilitando diminuir a real distância que os separa.
O ser humano tem receio do poder do seu semelhante e, dessa forma, se retrai. Os outros podem ser chefes, pais, maridos, esposas, pessoas de nível social mais elevado e assim por diante. O que acontece é que o poder que o outro possui, na verdade, é resultado de uma concessão permitida pela própria pessoa, fazendo de suas ações fonte para o crescimento desse poder e para que essa atitude ocorra. Por isso, há a necessidade de se libertar a mente, a fim de conquistar a própria libertação.
Argumentar é a arte de convencer e persuadir. Convencer, de forma a gerenciar informação, falar à razão do outro, através da demonstração e comprovação, vencendo COM e não contra o outro. É construir algo no campo das idéias e, quando isso sucede, alguém passa a pensar como nós. Persuadir, sabendo gerenciar a relação, é falar à emoção do outro. É construir algo no campo das ações e, quando assim ocorre, existe a realização de alguém sobre algo que desejamos.
Conforme o autor, para que se dê argumentação, existem quatro condições básicas: 1) Definir uma tese e saber para qual tipo de problema ela é resposta; 2) Definir uma linguagem comum para o auditório; 3) Manter um contato positivo com o auditório; 4) Agir de forma ética, honesta e transparente. Se a última alternativa não for trabalhada de maneira correta, passará a impressão de manipulação, enquanto se as atitudes forem honestas, a mesma resultará em uma característica muito importante: a credibilidade. Ou seja, para isso basta agir de maneira verdadeira, sem medo de revelar propósitos e emoções. 
O conjunto de pessoas que se quer convencer e persuadir é chamado de auditório e seu tamanho pode variar desde um país, onde a comunicação acontece em rede nacional, até um pequeno grupo de uma empresa. No entanto, pode ser definido ainda por uma única pessoa, como um cliente, um amigo, ou um namorado. 
Para Abreu, existem dois tipos de auditório: o universal, o qual é indefinido e não apresenta controle de variáveis, exemplificando: os telespectadores de um canal de televisão aberta não podem ser definidos apenas por gêneros, faixas etárias, classes sociais, níveis de instrução, ou regiões do país a que pertencem. Já no auditório particular, o grupo apresenta controle de variáveis, como: um grupo de alunas de uma escola de segundo grau, já que se tratam de jovens do sexo feminino, com o mesmo nível de escolaridade e que possuem outras características específicas àquele todo.
Para se convencer um auditório, é importante expor uma Tese de Adesão Inicial, fundamentada em fatos, ou presunções. Se esta for aceita pelo público, dá-se então a Tese Principal, interligando as duas através de técnicas de argumentação. Para persuadir uma pessoa, em primeiro lugar, tem que se entender o que ela ganharia fazendo o desejo de outrem, ou seja, deve-se educar a sensibilidade para os valores do outro, desde que de maneira ética.
Ao contrário do que alguns afirmam, o homem não é um ser unicamente racional, mas também extremamente emocional, por isso o conceito de Inteligência Emocional ganha cada vez mais destaque na atualidade. Logo, as emoções podem ser definidas como: disfóricas (raiva, medo e tristeza), ou eufóricas (amor e alegria), sendo estas últimas valores úteis, ou sensíveis, que permitem ao homem planejar seu futuro.
Ademais, é importante ainda saber sobre a Hierarquia dos Valores do auditório que se quer persuadir (fatores culturais, históricos e ideológicos) para poder usar o artifício de re-hierarquização, a partir de técnicas conhecidas desde a Antiguidade, as quais receberam o nome de: Lugares da Argumentação, a fim de conotar a ideia de local virtual, de fácil acesso, no qual os argumentos ficavam a disposição do orador.
Isto posto, são seis os Lugares de Argumentação: 1) Lugar de Quantidade, em que se afirma que uma coisa vale mais do que outra, em razão quantitativa, sendo um dos traços mais característicos é a utilização de números e estatísticas; 2) Lugar de Qualidade, que contesta a virtude do número, valorizando o único, o raro, como: uma obra de Picasso. 3) Lugar de Ordem, em que assegura a superioridade do anterior sobre o posterior, como é o caso das grandes invenções do homem (o avião, o telefone), assim como da  distribuição de medalhas em uma competição. 4) Lugar de Essência, este aprecia o indivíduo como representante de uma essência, por exemplo: concursos de miss e celebridades do cinema. 5) Lugar de Pessoa, que valoriza a superioridade das pessoas sobre objetos: Primeiro as pessoas, depois as coisas!. 6) Lugar do Existente, colocando preferência àquilo que já existe, daquilo que não existe. 
Como se pode notar, o texto, como interação entre sujeitos ativos, pressupõe um jogo de linguagem, no qual os sujeitos armam estratégias para convencer o outro de sua verdade. Para tanto, utilizam elementos de argumentação e escolha vocabular, com o intuito de se transmitir, da melhor forma possível, aquilo que se deseja, mas se pautando pela ética, para que o indivíduo não caia em descrédito. 
Em um processo argumentativo, alguns recursos de gerenciamento de informação levam o enunciador a manter o fluxo de atenção de seus ouvintes, concentrando-se em conceitos que, para ele, são importantes na construção de um argumento.
As Figuras Retóricas possuem um poder persuasivo e que ativa as emoções, criando cenas a serviço de um argumento, o que as difere das Figuras Estilísticas, preocupadas apenas com a emoção estética. Sendo assim, as figuras retóricas são ferramentas de linguagem mais complexas que podem ser divididas em quatro grupos: 1) Figuras de Som, por meio da seleção de palavras segundo a sonoridade; 2) Figuras de Palavra, como metonímias e metáforas; 3) Figuras de Construção, que incluem o pleonasmo (redundância de uma expressão), hipálage (transposição de sentidos), anáfora (repetição da mesma palavra, ou expressão, no principio de cada frase), epístrofe (repetição da mesma palavra, ou expressão, no final de cada frase) e concatenação (iniciação de uma frase com o final da frase anterior); 4) Figuras de Pensamento, onde as principais são: a antítese (oposição), o paradoxo (contradição lógica, situação que contradiz o senso comum) e a alusão (menção a algo, intertextualidade) .
Dessa forma, é através da prática que a arte de argumentar vai sendo inserida no cotidiano do ser humano, melhorando suas técnicas de varejo, assim como de relacionamento interpessoal. O livro trata de propor uma revolução nos relacionamentos, num momento crucial, em que cada vez mais o êxito profissional e pessoal depende da aproximação entre seres humanos (...) É endereçado a todos aqueles que desejam melhorar seu relacionamento profissional, aumentando, criativamente, sua capacidade para o trabalho em equipe e para a resolução de conflitos. Nesse sentido, é extremamente útil para executivos, professores, psicólogos, advogados, administradores e pessoal de vendas (ABREU, 1999: verso da capa), ou simplesmente por quem almeje uma mudança positiva em seus relacionamentos pessoais.




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