domingo, 29 de junho de 2014

Sobre o filme Abaixando a Câmera e o fotojornalismo...

Por Alice Ferman

         O filme Abaixando a Câmera coloca depoimentos de vários jornalistas e fotógrafos do Rio de Janeiro sobre como é difícil e muitas vezes dura da profissão de fotojornalista em uma cidade que se encontra em constante guerra civil.
         As principais obrigações de um jornalista estão em buscar a verdade dos fatos, encontrar provas e relatar tudo da forma mais isenta possível. De acordo com o filme, o fotógrafo no jornal tem o dever de registrar e denunciar o que estiver acontecendo de estranho na frente dele. “Eu vou fotografar, depois eu vou saber se eu vou censurar ou não”, disse Luiz Morier.
         O dia-a-dia pode ser muito sofrido e até chocante, pois muitas vezes terá que cobrir situações de risco em comunidades carentes, momentos de denúncia e até funerais. Por isso, deve ser uma pessoa que esteja apta a enfrentar situações de alta adrenalina, que não se abata tão facilmente e que tenha vontade de denunciar instantes que sejam relevantes à sociedade. Ou seja, como coloca Patrícia Santos, é um profissional considerado um pouco suicida pela sociedade, pois arrisca a própria vida para trazer uma imagem do que está acontecendo.
         No documentário, os entrevistados contam ainda que na época da ditadura os fotógrafos tiveram que ser corajosos para irem às ruas e registrarem cenas difíceis, que poderiam comprometê-los. Porém, hoje também vivemos um momento político bastante conturbado, em que cobrir manifestações se tornou muito perigoso para jornalistas, que ficam entre policiais e manifestantes.
         O fotojornalista que cobre editoria de cidade em algum momento vai passar pela triste e tensa situação de estar no meio do fogo cruzado, seja entre policiais e traficantes, policiais e manifestantes, ou qualquer outra dura realidade de violência que esteja testemunhando.
         Além disso, é um profissional que está em constante aprendizado para ser o mais imparcial possível. De acordo com Luiz Morier, um bom fotógrafo deve ter sorte, olhar e habilidade para compreender a ação que está na sua frente. No entanto, existem momentos em que ele deve abaixar a câmera. Como Cláudio Abramo já dizia: “o jornalismo é o exercício diário da inteligência e a prática cotidiana do caráter”.
         Então, dependendo da cobertura, o profissional deve dar preferência a ajudar uma pessoa que esteja muito machucada e salvar vidas, pois “nenhuma foto vale uma vida (…) Mas se você não conseguir, que pelo menos aquela vida esteja valendo uma boa foto”, completou Custódio Coimbra.
         O registro da imagem é fundamental e cada dia mais serve como prova para diversos casos. Porém, como colocou Marcelo Freixo, o discurso que será construído em torno da fotografia às vezes é distorcido. O flagrante é único, mas a legenda é uma leitura posterior àquele instante. Logo, o jornalista deve ter muito cuidado na divulgação de assuntos super-sérios e fazê-la de forma ética e benéfica para a população.
         Segundo ainda o manual de ética internacional, o fotógrafo não deve contribuir para alterar, tentar alterar ou influenciar eventos e a edição deve manter a integridade das imagens. Contudo, a prática da ética depende da consciência de cada indivíduo.
         No filme, alguns profissionais da área falam que existe um comércio em paralelo que se sustenta da desgraça alheia. Fotógrafos que vivem tentando vender imagens para jornais, mas não tem o olhar, o respeito, ou a ética jornalística. O problema é que não se pode apenas pensar em vender jornal, como se fosse mais um produto do mercado. É preciso haver uma consciência por trás, já que o jornalismo é fonte de informação e uma ferramenta poderosa de influência e justiça social.
         Outro tema muito abordado no documentário foi o fato de os jornais publicarem imagens de forte impacto, mostrando cenas como corpos mortos, ou com muito sangue. Para Rodolfo Fernandes a fotografia em um jornal “não deve chocar por chocar, mas ser um momento importante para a população, que vá ficar para a história". Alex Ferro complementa dizendo que:  “se não há necessidade de publicar cabeças e pedaços de corpo decepados, não se deve publicar. No entanto, pode-se divulgar uma lágrima”, como foi o caso da fotografia feita por Marcos Tristão de uma mãe que perdeu o filho para a violência.
         Já de acordo com o psicanalista Carlos Lugarinho, as imagens não podem ser contestadas, mas apenas criticadas. O que deve ser contestada é a situação por trás da imagem, porque o obsceno está naquela realidade registrada e não na fotografia. Porém, é necessário que os jornalistas hajam com responsabilidade e bom senso em relação a dor das pessoas, que procurem ajudar a população, com cuidado para não invadir a privacidade ou contribuir para a “máfia do chocante sem propósito”.
         Como o papel da imprensa é denunciar, muitos não gostam de jornalistas, como é o caso da maioria dos camelôs, policiais e pessoas que vivem em comunidades carentes. Entrentanto, os próprios entrevistados admitem que a maioria dos jornais só vai a favelas em épocas de carnaval ou violência, se ausentando de outros momentos importantes para os que vivem nesses locais.
         Porém, Marcos Tristão lembra ainda que quem vive nessas comunidades também sabe que “a imprensa é o único advogado que eles tem”. Ou seja, o jornalismo tem um papel social fundamental para o desenvolvimento da sociedade e que deve procurar ajudá-la acima de tudo sem manipular informações.




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