terça-feira, 1 de julho de 2014

Irresistível golpe no estômago

CCBB mostra a exposição 'Resistir é Preciso' sobre a ditadura de 1964

Por Alice Ferman

A sensação de mal-estar crescia a cada passo dentro da exposição Resistir é Preciso do CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil). Apesar da falta de recursos sensoriais, o clima não podia ser diferente quando se trata de um assunto tão pesado como a ditadura militar. Mas enquanto sangrentas obras e documentos revoltavam os que não viveram os anos de chumbo, Eládio Vieira Gomes, de 84 anos, revivia tudo calado.
         O silêncio que assolou o Brasil por 21 anos, ainda vive no peito de quem sofreu as consequências do Golpe de 1964. Foi na virada do dia 31 de março para o 1º de abril que as Forças Armadas brasileiras, apoiadas por entidades como a Igreja Católica, os Estados Unidos e por grande parte da sociedade civil, instauraram um regime de exceção no país, com o pretexto de impedir um golpe comunista e defender a liberdade e democracia do Brasil. No entanto, com o decorrer dos dias, alguns já conseguiam perceber que essa não era a real intenção da ruptura e que os militares não deixariam o poder tão cedo. Confesso que demorei alguns meses pra entender, mas em pouco tempo já tinha milico fardado lá na ferrovia para vigiar a gente, disse Eládio Gomes.
Há 50 anos, Gomes era técnico em eletromecânica na Ferrovia Centro Atlântica (FCA), na época Rede Ferroviária Federal S/A (RFFSA), localizada em Ladainha, MG, cidade também onde nascera. O então ferroviário, que estava com 34 anos, tinha acabado de conquistar uma bolsa de estudos do empregador para cursar engenharia e trabalhar na Fábrica Nacional de Motores, atual General Motors, com sede no Rio de Janeiro. Porém, o mesmo golpe sorrateiro que depôs o presidente constitucional João Goulart do poder, também tirou a única oportunidade que Eládio teve de se graduar. Quando eu consegui a chance de estudar, fiquei em êxtase! Só que acabou não acontecendo por causa do golpe e da transferência do local de trabalho para Divinópolis, MG. Logo após, em 1970, eu entrei em depressão por excesso de trabalho e sobrecarga e fui levado para Belo Horizonte pra fazer um tratamento no Hospital Psiquiátrico da cidade.
No entanto, para o espanto do ex-técnico, naquela época era comum cuidarem de problemas psicológicos com choque e remédios fortíssimos. Lá, sim, eu vi tortura acontecendo. Vi gente que não era louca e nem tinha problemas psicológicos levar choque. Com o AI-5 (Ato Institucional Número Cinco), vigorado em 1968, o regime ditatorial tratou de legalizar as práticas de perseguição, censura e investigação de milhares de pessoas e suas famílias no Brasil, ajudando a abafar, assim, inúmeros casos de tortura. Aqueles que não amam a revolução, ao menos devem temê-la, foi a polêmica frase disseminada pela ditadura e que abre o documentário O Dia que Durou 21 Anos (2011) e exprime o âmago da propaganda militar.
De acordo com Eládio Gomes, a exposição no CCBB, é apenas um panorama, um recorte da ditadura, mas que explica de forma clara, honesta e crítica os acontecimentos da época. Aquela câmara escura em que os nomes dos desaparecidos surgiam, despencavam e quebravam no chão até formar uma pilha de nomes foi o ponto alto. Nessa parte a gente imerge e começa a pensar no perigo de deixar que essas mortes virem simples números.
O Brasil ainda guarda profundas cicatrizes do nebuloso regime, que vem sendo discutidas e reveladas devido à efeméride e pela Comissão Nacional da Verdade, o que tem possibilitado esclarecer casos de desaparecimento, como o do deputado Rubens Paiva, morto sob tortura pelos militares em 1971. Além disso, Gomes lembra que o Brasil é o único país democrático e ocidental que ainda mantém uma Polícia Militar, mesmo já possuindo exército e Polícia Civil para assegurar a proteção da população. Porém, apesar de falhas na atual conjuntura democrática brasileira, o país evoluiu bastante e procura assegurar os direitos humanos básicos, como de votar e de se manifestar, desde a constituição de 1988.
         Um ótimo exemplo disso ocorre com a Marcha da Família com Deus. Para Eládio, mesmo que seja movida por interesses políticos escusos, ou que esteja se aproveitando do marco de 50 anos do golpe para se promover, ela defende um novo golpe militar pela salvação da democracia. Segundo o aposentado, se eles querem reivindicar, que reivindiquem, afinal isso é uma democracia, concluiu rindo.

CORDENADA:

Quando começou a entender a real situação política do país na época?
Meu primeiro impacto foi quando perdi a bolsa de estudos, sabe? Era minha expectativa de crescimento. Quando aconteceu eu estava no hospital com a minha mulher, que tinha acabado de dar a luz ao nosso primeiro filho no dia 2 de abril, então demorei um pouco a perceber.
Só que eu trabalhava em ferrovia, que era uma área estratégica, e em poucos meses já tinha milico lá para vigiar a gente.

Se Jango tivesse continuado no poder e feito as reformas de base na agricultura, economia e educação, acredita que hoje o país estaria mais desenvolvido?
Claro! Muitas pessoas acham que dinheiro é sinônimo de desenvolvimento.
Tinha realmente uma galera que queria trazer o comunismo pra cá, mas o Brasil é quente demais pra isso. O brasileiro é um povo muito misturado: tem baiano, nordestino, gaúcho e isso só pode caber dentro de uma democracia.

Qual o grande legado da ditadura?
Um dos grandes legados da ditadura é ter perdido muito em ferrovia e hidrovia, já que eles queriam investir em estrada para ganhar dinheiro de quem estava financiando o regime. Além disso, o atraso foi também espiritual, porque, quando se vive com medo, não se pensa em crescer, mas em sobreviver.

Conheceu alguém que sofreu tortura política?
Em 1983, meu filho mais velho, Aédio Vieira Gomes, que tinha 23 anos e era afiliado ao PT, se envolveu na greve da fábrica de tecidos Santanense, em MG. Ele era um dos líderes do movimento e chegou a ficar sumido por 3 dias, mas não se lembra até hoje do que aconteceu, nem de quem o amarrou.
Hoje não me envolvo, nem gosto que meus filhos se envolvam em militância, porque atrai muita atenção e pobre não pode se dar ao direito, porque tem família pra sustentar.

O que faltou na exposição?
Não é muito emotiva. Poderiam ter colocado uma música de fundo do Geraldo Vandré, ou Elis Regina e faltou tensão para as pessoas sentirem na pele a ditadura.

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